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Sou ética e sempre procuro o autor do texto; caso você encontre algum texto sem autoria ou com a mesma equivocada, avise-me por favor, pois recebi desse modo e não consegui descobrir o autor(a), bem como, autoria enganosa. Um fraterno abraço, Paz & Luz!

4 de dezembro de 2011

Pertencer






 Pertencer
Clarice Lispector

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço 
a criança sente o ambiente, a criança quer: 
nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. 

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer.
Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia 
estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça. 

Se no berço experimentei esta fome humana, 
ela continua a me acompanhar pela vida afora, 
como se fosse um destino. 
A ponto de meu coração se contrair de inveja
e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus. 

Exatamente porque é tão forte em mim 
a fome de me dar a algo ou a alguém, 
é que me tornei bastante arisca: 
tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. 
Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. 
E preciso de mais do que isso. 

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, 
perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. 
E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer"
começou a me invadir como heras num muro. 

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, 
por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? 
Porque não é isso que eu chamo de pertencer. 
O que eu queria, e não posso, é por exemplo 
que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim 
eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. 
Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. 
E uma alegria solitária pode se tornar patética.
É como ficar com um presente todo embrulhado 
em papel enfeitado de presente nas mãos 
- e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o!
Não querendo me ver em situações patéticas e,
por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, 
raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos. 

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar 
unir-se a algo ou a alguém mais forte. 
Muitas vezes a vontade intensa de pertencer 
vem em mim de minha própria força 
- eu quero pertencer para que minha força não seja inútil 
e fortifique uma pessoa ou uma coisa. 

Quase consigo me visualizar no berço, 
quase consigo reproduzir em mim a vaga 
e no entanto premente sensação de precisar pertencer. 
Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, 
eu nasci e fiquei apenas: nascida. 

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. 
Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante 
espalhada, acreditava-se que ter um filho 
curava uma mulher de uma doença. 
Então fui deliberadamente criada: 
com amor e esperança. Só que não curei minha mãe.
E sinto até hoje essa carga de culpa: 
fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. 
Como se contassem comigo nas trincheiras 
de uma guerra e eu tivesse desertado. 
Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido 
em vão e tê-los traído na grande esperança. 

Mas eu, eu não me perdôo. 
Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre:
eu nascer e curar minha mãe.
Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe.
Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão
de não pertencer porque, como desertor, 
eu tinha o segredo da fuga 
que por vergonha não podia ser conhecido. 

A vida me fez de vez em quando pertencer, 
como se fosse para me dar a medida 
do que eu perco não pertencendo.
E então eu soube: pertencer é viver.
Experimentei-o com a sede de quem está no deserto
e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. 
E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!

Clarice Lispector

2 comentários:

  1. Bom dia Kika

    Muitas vezes a gente lê frases soltas da Clarice Lispector e acha que ela é maravilhosa, mas quando nos deparamos com um texto desse, temos a certeza...

    Beijos e uma semana maravilhosa.
    Ani

    ResponderExcluir
  2. Maravilhosa a Clarice!
    Maravilhosa você...
    Estou com saudades!
    Vim te deixar o meu abraço de paz e bem...

    Karla Mello

    ResponderExcluir

Obrigada por participar. Luz & Paz!!!
Beijos fraternos!!

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