11 de agosto de 2025

Hoje.... Ana Jácomo

 



Hoje eu não quero conversas vestidas de uniforme. Diálogos impecavelmente arrumados que não deixam o coração à mostra. As palavras podem sair de casa sem maquiagem. Podem surgir com os cabelos desalinhados, livres de roupas que as apertem, como se tivessem acabado de acordar. Dispensa-se tons acadêmicos, defesas de tese, regras para impressionar o interlocutor. O único requinte deve ser o sentimento. É desnecessário tentar entender qualquer coisa. Tentar solucionar qualquer problema. Buscar salvamento para o quer que seja.

Hoje eu não quero falar sobre o quanto o mundo está doente. Sobre como está difícil a gente viver. Sobre as milhares de coisas que causam câncer. Sobre as previsões de catástrofes que vão dizimar a humanidade. Sobre o quanto o ser humano pode ser também perverso, corrupto, tirano e outras feiúras. Sobre os detalhes das ações violentas noticiadas nos jornais. Não quero o blablablá encharcado de negatividade que grande parte das vezes não faz outra coisa além de nos encher de mais medo. Não quero falar sobre a hipocrisia que prevalece, sob vários disfarces, em tantos lugares. Hoje, não. Hoje, não dá. Não me interessam o disse-que-disse, os julgamentos, a investigação psicológica da vida alheia, os achismos sobre as motivações que fazem as pessoas agirem assim ou assado, o dedo na ferida.

Hoje eu não quero aquelas conversas contraídas pelo receio de não se ter assunto. A aflição de não se saber o que fazer se ele, de repente, acabar. O esforço de se falar qualquer coisa para que a nossa quietude não seja interpretada como indiferença. Hoje eu não quero aquelas conversas que muitas vezes acontecem somente para preenchermos o tempo. Para tentarmos calar a boca do silêncio. Para fugirmos da ameaça de entrar em contato com um monte de coisas que o nosso coração tem pra dizer. Além do necessário, hoje não quero falar só por falar nem ouvir só por ouvir. Que a fala e a escuta possam ser um encontro. Um passeio que se faz junto. Um tempo em que uma vida se mostra para a outra, com total relaxamento, sem se preocupar se aquilo que é mostrado agrada ou não. Se aumenta ou diminui os índices de audiência.

Hoje, se quiser, se puder, se souber, me fala de você. Da essência vestida com essa roupa de gente com a qual você se apresenta. Fala dos seus amores, tanto faz se estão perto do seu corpo ou somente do seu coração. Fala sobre as coisas que costumam fazer você sintonizar a frequência do seu riso mais gostoso. Fala sobre os sonhos que mantêm o frescor, por mais antigos que sejam. Fala a partir daquilo em você que não desaprendeu o caminho das delícias. Do pedaço de doçura que não foi maculado. Da porção amorosa que saiu ilesa à própria indelicadeza e à alheia. A partir daquilo em você que continuou a acreditar na ternura, a se encantar e a se desprevenir, apesar de tantos apesares. Conta sobre as receitas que lhe dão água na boca. Sobre o que gosta de fazer para se divertir. Conta se você reza antes de adormecer.

Hoje, me fala de você. Dos momentos em que a vida lhe doeu tanto que você achou que não iria aguentar. Fala das músicas que compõem a sua trilha sonora. Dos poemas que você poderia ter escrito, de tanto que traduzem a sua alma. Senta perto de mim e mesmo que estejamos rodeados por buzinas, gente apressada, perigos iminentes, faz de conta que a gente está conversando no quintal de casa, descascando uma laranja, os pés descalços, sem nenhum compromisso chato à nossa espera. A gente já brincou tanto de faz-de-conta quando era criança, onde foi que a gente esqueceu como se chega a esse lugar de inocência? Fala da lua que você admirou outra noite dessas, no céu. Da borboleta que lhe chamou à atenção por tanta beleza, abraçada a alguma flor, como se existisse apenas aquele abraço. Diz se quando você acorda ainda ouve passarinhos, mesmo que não possa identificar de onde vem o canto. Diz se a sua mãe cantava para fazer você dormir.

Senta perto e me conta o que você sentiu quando viu o mar pela primeira vez e o que sente quando olha pra ele, tantas vezes depois. Se tinha jardim na casa da sua infância, me diz que flores riam por lá. Conta há quanto tempo não vê uma joaninha. Se tinha algum apelido na escola. Se consegue se imaginar bem velhinho. Fala da sua família, a de origem ou a que formou. Das pessoas que não têm o seu sobrenome, mas são familiares pra sua alma. Fala de quem passou pela sua vida e nem sabe o quanto foi importante. Daqueles que sabem e você nem consegue dizer o tamanho que têm de verdade. Fala daquele animal de estimação que deitava junto aos seus pés, solidário, quando você estava triste. Diz o que vai ser bacana encontrar quando, bem lá na frente, olhar para o caminho que fez no mundo, em retrospectiva.

Podemos falar abobrinhas, desde que sejam temperadas com riso, esse tempero que faz tanto bem. A gente pode rir dos tombos que você levou na rua e daqueles que levou na vida, dos quais a gente somente consegue rir muito depois, quando consegue. A gente pode rir das suas maluquices românticas. Das maiores encrencas que já arrumou. Das ciladas que armaram para você e, antes de entender que eram ciladas, chegou até a agradecer por elas. De quando descobriu como são feitos os bebês. A gente pode rir dos cárceres onde se prendeu e levou um tempo imenso pra descobrir que as chaves estavam com você o tempo todo. Das vezes em que se sentiu completamente nu diante de um Maracanã, tamanha vergonha, como se todos os olhos do mundo estivessem voltados na sua direção. Das mentiras que contou e acreditaram com facilidade. Das verdades que disse e ninguém levou a sério.

Não precisa ter pauta, seguir roteiro, deixa a conversa acontecer de improviso, uma lembrança puxando a outra pela mão, mas conta de você e deixa eu lhe contar de mim. Dessas coisas. De outras parecidas. Ouve também com os olhos. Escuta o que eu digo quando nem digo nada: a boca é o que menos fala no corpo. Não antecipe as minhas palavras. Não se impaciente com o meu tempo de dizer. Não me pergunte coisas que vão fazer a minha razão se arrumar toda para responder. Uma conversa sem vaidade, ninguém quer saber qual história é a mais feliz ou a mais desditosa.

Hoje eu quero conversar com um amigo pra falar também sobre as coisas bacanas da vida. As miudezas dela. A grandeza dela. A roda-gigante que ela é, mesmo quando a gente vive como se estivesse convencido de que ela é trem-fantasma o tempo inteiro. Um amigo pra falar de coisas sensíveis. Do quanto o ser humano pode ser também bondoso, honesto, afetuoso, divertido e outras belezas. Dos lugares onde nossos olhos já pousaram e daqueles onde pousam agora. Um amigo para conversar horas adentro, com leveza, de coisas muito simples, como a gente já fez mais amiúde e parece ter desaprendido como faz. Um amigo para se conversar com o coração. E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. Deixa os nossos olhos se encontrarem vez ou outra até nascer aquele sorriso bom que acontece quando a vida da gente se sente olhada com amor. Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.

Ana Jácomo


Caio Fernando Abreu... fragmento

 



" Tomara que a gente não desista de ser quem é por nada nem ninguém deste mundo. 
Que a gente reconheça o poder do outro sem se esquecer do nosso. 
Que as mentiras alheias não confundam as nossas verdades, mesmo que as mentiras e as verdades sejam impermanentes. 
Que friagem nenhuma seja capaz de encabular o nosso calor mais bonito. 
Que, mesmo quando estivermos doendo, não percamos de vista nem de sonho a ideia da alegria. 
Tomara que apesar dos apesares todos, a gente continue tendo valentia suficiente para não abrir mão de se sentir feliz."

Caio Fernando Abreu

5 de agosto de 2025

O importante é que eu faça o bem

 



O importante é que eu faça o bem

 

 

Outrora vivia um rei oriental cuja sabedoria iluminava o país como um sol, cuja inteligência era ímpar, cujas riquezas superavam largamente as de qualquer outra pessoa.

Um dia um vizir de semblante triste abordou-o.

"Grande sultão, Vossa majestade é o homem mais sábio, maior e mais poderoso da vida e da morte.

Mas o que eu ouvia enquanto viajava pelo país?

Em toda parte as pessoas vos elogiam, mas algumas pessoas falaram muito mal de Vossa Mejestade.

Contaram piadas e reclamaram das vossas decisões sábias.

Como é que acontece, mais poderoso entre os poderosos, de existir tamanha insubordinação em vosso reino?"

O sultão sorriu indulgentemente e respondeu: "Como todos os homens de meu reino, tu sabes o que tenho realizado por todos vós.

Sete países estão sob meu controle.

Sob meu governo, sete países alcançaram progresso e prosperidade.

Em sete países, as pessoas me amam por causa da minha justiça.

Tu certamente tens razão.

Posso fazer muita coisa.

Posso mandar fechar os portões gigantescos das minhas cidades.

Mas há uma coisa que não posso fazer.

Não posso fechar a boca dos meus súditos.

Realmente, não é uma questão das coisas más que algumas pessoas dizem a meu respeito.

O importante é que eu faça o bem."

 

Do livro: O Mercador e o Papagaio - Nossrat Peseschkian - Papirus Editora




29 de julho de 2025

O que realmente te prende??? - para refletir

 




Às vezes, as correntes que nos impedem de sermos livres são mais mentais do que físicas.

28 de julho de 2025

Você é Especial para Alguém... Afrodite para Maiores

 



Você é Especial para Alguém...

Posted: 24 Aug 2011 04:35 PM PDT

Afrodite para Maiores




É incontável o número de pessoas que passa pela nossa vida, algumas deixam marcas de amizade, outras de ressentimento, de saudade e ainda há as que não deixam coisa nenhuma, apenas passam e vão embora, sem que haja sequer motivo para serem lembradas posteriormente. São as insípidas ao nosso paladar! Porém, todas elas convergem em um ponto: cada uma tem um comportamento que lhe é próprio, que a caracteriza das demais. Há tipos extrovertidos, excêntricos, introspectivos, carismáticos, estranhos, etc. Mas escolhemos para perto apenas o tipo que nos atrai, como um ímã, uma essência aromática, um jeito peculiar que nos faz bem.


Em se tratando de comportamento entram aí a personalidade, o temperamento e as atitudes mais ou menos padrão que cada pessoa tem. Às vezes, devido aos imprevistos do cotidiano, pode-se mudar essa simetria e moldá-la de acordo com o fato presente. Afinal, ninguém é tão equilibrado (e coerente) a ponto de agir sempre da mesma maneira até nas circunstâncias sobrevenientes. Porém, de um modo geral, somos identificados pela especificidade com que demonstramos as nossas ações e reações, sejam elas raras ou comuns. Daí a atração ou repulsão recíproca.


Esse padrão de atitude é que definirá quem fica e quem vai embora. Sentimo-nos atraídos por aquelas que convergem no nosso modo de pensar e agir, que nos completam por possuírem semelhanças emocionais e/ou psicológicas, resultando em laços de amizade ou algo mais, se for o caso. Em contrapartida, afastamo-nos daquelas que destoam das peculiaridades que nos são próprias ou que vão de encontro com os nossos fundamentos. Essas não nos encantam. São opacas aos nossos olhos e nos fazem mal. Podemos até conviver socialmente com esses indivíduos, mas inexiste interação, empatia ou desejo de estreitar a relação. E esse sentimento de repulsa quase sempre é sentido por ambos.


Acredito que essa força que nos aproxima de alguém em especial seja algo sinestésico, percebido pelos dois. É aquele momento em que as energias fluem e evoluem para algo sólido e prazeroso. Essa pessoa passa a ser exclusiva, a fazer parte da nossa vida e a ter um grau de importância que entra por um caminho sinuoso de emoções e acaba perfazendo todo o trajeto dos sentimentos. Há sintonia em todos os sentidos: no olhar, nas palavras, nos gestos, na cumplicidade real, verdadeira... Nem a distâncianem o tempo apagam essa sensação fantástica de correspondência sensorial.


A verdade é que não conseguimos viver sozinhos, sem um amigo verdadeiro, sem conhecer a paixão, sem nos envolver, sem um amor que nos complete. A ausência dessa ligação nos torna reticentes e arredios às emoções. Passamos a ter uma visão ambivalente do mundo, alterando o comportamento e as atitudes. É um andar mais lento para chegar em casa, uma sensação de fome após estar saciado, é uma letargia permanente que encobre o sorriso e traz a nostalgia para dentro de nós. Precisamos de alguém por perto, bem próximo, isso é urgente, para ontem. E por onde quer que vamos, sempre haverá alguém, basta estar atento para identificá-lo.


Encontrar essa pessoa é como fechar um ciclo e iniciar outro. É apalpar o vento, ouvir o silêncio, enxergar os sonhos! É uma energia que nasce e se expande para todos os lados. Que importa se esse alguém é tímido ou extrovertido em demasia, se tem manias estranhas ou fala demais, se é bonito ou de beleza comum; é a pessoa que escolhemos para ampliar as nossas emoções. No meio de tantas outras, no meio de todas as outras, é a que faz a diferença! Não há nada que substitua essa vivência. Quem não compreende isso não sabe viver. Temos que aproveitar o que for possível, afinal, o amanhã é incerto para todos nós.

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