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6 de junho de 2011

Esopo e a língua



Esopo e a língua

Esopo era um escravo de rara inteligência que servia à casa
de um conhecido chefe militar da antiga Grécia.

Certo dia, em que seu patrão conversava com outro companheiro sobre
 os males e as virtudes do mundo, Esopo foi chamado a dar sua opinião
sobre o assunto, ao que respondeu seguramente:
- Tenho a mais absoluta certeza de que a maior virtude da
 Terra está à venda no mercado.
- Como? Perguntou o amo surpreso. Tens certeza do que está falando?
Como podes afirmar tal coisa?
- Não só afirmo, como, se meu amo permitir,
irei até lá e trarei a maior virtude da Terra.

Com a devida autorização do amo, saiu Esopo e,
dali a alguns minutos voltou carregando um pequeno embrulho.
Ao abrir o pacote, o velho chefe encontrou vários pedaços de língua, e,
enfurecido, deu ao escravo uma chance para explicar-se.

- Meu amo, não vos enganei, retrucou Esopo. A língua é, realmente, a maior das virtudes.
Com ela podemos consolar, ensinar, esclarecer, aliviar e conduzir.
Pela língua os ensinos dos filósofos são divulgados, os conceitos religiosos
 são espalhados, as obras dos poetas se tornam conhecidas de todos.
Acaso podeis negar essas verdades, meu amo?

- Boa, meu caro, retrucou o amigo do amo. Já que és desembaraçado,
que tal trazer-me agora o pior vício do mundo.
- É perfeitamente possível, senhor, e com nova autorização de meu amo,
 irei novamente ao mercado e de lá trarei o pior vício de toda terra.

Concedida a permissão, Esopo saiu novamente e dali a minutos voltava
com outro pacote semelhante ao primeiro. Ao abri-lo, os amigos encontraram
novamente pedaços de língua.

Desapontados, interrogaram o escravo e
 obtiveram dele surpreendente resposta:
- Por que vos admirais de minha escolha?
- Do mesmo modo que a língua, bem utilizada, se converte numa sublime virtude,
quando relegada a planos inferiores se transforma no pior dos vícios.
Através dela tecem-se as intrigas e as violências verbais.
Através dela, as verdades mais santas, por ela mesma ensinadas,
podem ser corrompidas e apresentadas como anedotas vulgares e sem sentido.
- Através da língua, estabelecem-se as discussões infrutíferas,
os desentendimentos prolongados e as confusões populares
que levam ao desequilíbrio social.

- Acaso podeis refutar o que digo? Indagou Esopo.

Impressionados com a inteligência invulgar do serviçal,
ambos os senhores calaram-se, comovidos, e o velho chefe,
no mesmo instante, reconhecendo o disparate que era ter um homem tão sábio
como escravo, deu-lhe a liberdade.

Esopo aceitou a libertação e tornou-se, mais tarde, um contador de fábulas
muito conhecido da antiguidade e cujas histórias até hoje se espalham por todo mundo.

(D.A)

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