5 de setembro de 2010

Entre nós - Letícia Thompson -

Entre nós

Amar é importante.
Sentir o amor, sentir-se amado é importante.

O grande mal que atinge o mundo é a ausência daquilo que chamamos
o maior de todos os sentimentos e a maior dentre todas as coisas.



Não falo aqui do amor carnal, embora este entre em conta na
contabilidade da felicidade de cada um de nós.



O que falo é no amor que gera a atenção, aquele devido e reclamado



por cada ser, mas mais reclamado que tudo, como se o dar não fizesse parte do



acordo implícito em cada relação humana.



As pessoas desinteressam-se das outras, porque dizem-se ter o suficiente



com os próprios problemas. E o têm, provavelmente.



Mas o que gera o isolamento, a solidão temida, é justamente querer receber



aquilo que nos recusamos a dar.



O que falta é a atenção necessária ao outro para sentir-se,



pelo menos,ouvido e parte integrante na roda da vida.



Cada um fala por si e poucos são os que se importam realmente



com que o outro diz, com seus reais sentimentos,suas reais razões.



Muitas e muitas vezes quando um fala,



o outro já está preparando-se para dizer,



sem ponderar, aquilo que ele mesmo pensa ou sente.



Pessoas tornam-se assim, surdas às outras,



porque só conseguem ouvir a voz do próprio egoísmo,



não por maldade, mas pelo apelo das próprias necessidades.



Pessoas juntas sentem-se sozinhas, casais unidos pela vida



sentem-se abandonados, amigos criam relações superficiais,



pais e filhos distanciam-se.



Olhar nos olhos do outro é importante.



Perceber a dor ou a felicidade e compartilhar dela é fundamental ao



outro na sua necessidade de se sentir amado.



Poucos, raros mesmo, são os que param o que estão fazendo quando o companheiro, amigo ou colega de trabalho precisam falar.



Parte do que se diz fica desconectada no ar e a outra parte,



invariáveis vezes, esquecidas depois.



Numa fração de segundo a frase



"do que mesmo estávamos falando?"



pode entrar na conversa, deixar um sem ação e o outro sem graça.



A atenção dada ou recebida faz parte do tratamento e da cura



dos males que tomam conta do mundo, ela reforça relações,



cria laços, solda, une e faz bem.



Não ouvimos Deus porque não queremos ouvir, porque, quem sabe,



o que Ele quer nos dizer nos desagrada e contraria, mas Ele fala



e só percebemos isso depois com o infalível "eu sabia"



que nos fere como um punhal.



Não somos ouvidos por Ele porque não abrimos inteiramente nosso eu,



temos sempre pressa, estamos sempre ocupados.



Entre Deus e nós e entre nós e os outros somos os que



definimos o tipo de relação que temos.



Podemos colocar o primeiro tijolo ou esperar que alguém o faça.



Porém a ordem com que este é colocado influencia e determina cada um dos nossos passos e abre ou fecha para nós as portas do paraíso.

Letícia Thompson

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